segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Entre para um grupo de ciclismo e vença o medo de pedalar no trânsito

Usar a bike em turma traz condicionamento físico e acaba com a insegurança

As pedaladas têm gostinho de superação quando você é criança. Difícil encontrar quem não se lembre com sorriso do dia em que o equilíbrio venceu e as rodinhas foram deixadas de lado. Sensação parecida aparece quando, para deixar de sofrer com o trânsito da cidade, muita gente resolve apostar na bike. Dispostas a vencer o desafio de enfrentar buracos, lombadas e motoristas impacientes, muitas pessoas procuram estímulo extra nos grupos de ciclismo. "Em turma, o entusiasmo e a segurança aumentam, favorecendo a prática", afirma o professor Leandro Carvalho, que trabalha com treinamento e assessoria de corrida de rua e ciclismo. 

Lívia Araújo começou tímida, arriscando pegar a bicicleta de vez em quando para ajudar na dieta. Tomou gosto pela brincadeira e ingressou no Massa Crítica, grupo de ciclistas urbanos de Porto Alegre (RS). A turma usa a bike como meio de transporte para a maioria dos deslocamentos e se reúne uma vez por mês para pedalar como diversão. "Hoje pedalo para o trabalho, faço passeios e também usa a bicicleta quando preciso fazer pequenas compras", conta. Mas ainda não é fácil, existe uma guerra entre carros, motos e bicicletas. Lívia acredita que o espaço das bicicletas deve ser respeitado, sem imposição. "A cidade só tem a ganhar com mais ciclistas nas ruas". 
Ela conta que, no Massa Crítica, os novatos têm todo o apoio dos mais experientes quando há subidas e movimentos mais arriscados em ruas agitadas. Também faz parte da rotina do grupo a troca de informações sobre os cuidados mecânicos e sobre alimentação, tudo em nome de um dia a dia mais saudável. "No grupo, essas conversas são naturais, fazem parte da rotina. Você sente o clima de cooperação e, quando menos imagina, já se sente parte daquilo tudo, seus hábitos já foram completamente transformados pela bicicleta".
Medo de ficar para trás
A regra, comum a todos os grupos, não deixa brecha para confusão. Nenhum ciclista deve ser deixado para trás e a descoberta de distâncias e percursos desafiadores precisa fazer parte da programação. "Não há espaço para desmotivação, nosso esforço é para que cada vez mais pessoas sintam os efeitos desta prática, sintam o quanto ela pode melhorar a qualidade de vida não só de quem pedala, mas também de quem tem a chance de viver numa cidade menos congestionada e menos poluída", afirma Alessandro Della Giustina, da Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis. 

Em relação à segurança, optar por um grupo de ciclismo outra vantagem. "É muito mais difícil um motorista cometer uma imprudência e colocar em risco a vida de uma massa sobre rodas do que de um ciclista sozinho. E, no caso de quem pedala à noite, sempre há alguém que fazer companhia até em casa após o circuito", lembra a ciclista Lívia, do Massa Crítica. No caso de haver acidente, o grupo consegue socorrer e providenciar todo suporte necessário muito mais facilmente, além de serem reduzidas as chances de assalto. 
Guerra contra os carros
Aumentar a rede de amizades também fica mais fácil quando você entra para um grupo e passa a ganhar intimidade com esse modelo mais saudável e ecológico de circular por aí. "Você precisa prestar atenção em si e também nos outros, acompanhando o ritmo da turma e se adaptando às mudanças. É um exercício para o corpo e também para a mente", afirma Maurício Soares Lima, do grupo Floripa Bikers, de Florianópolis (SC), que se reúne duas noites por semana para circular pela cidade. 

Também existe quem aposte nas pedaladas para se afastar da rotina, como é o caso do movimento Pedala Joinville. "Nossos pedais são sempre para regiões rurais, sem pressão, barulho e livre dos perigos do trânsito. A gente aproveita mais o esporte e também fica mais fácil fazer novas amizades", afirma Roberto Andrich, integrante do grupo. 
Mas quem experimenta garante que o difícil mesmo é reservar somente algumas ocasiões para as pedaladas. Willian Cruz não aguentava mais dirigir em São Paulo e, há sete anos, trocou seu carro por uma bicicleta. "Conheço os riscos. Mas acho que o grupo tem um papel importante nisso, a pessoa vai ganhando segurança para cair nas ruas sozinho quando não é dia de pedalar com a turma". 

Por outro lado, o grupo também ensina os ciclistas a respeitarem os carros e as motocicletas. Uma lição importante quando se tem em conta o número reduzido de ciclovias que cortam as vias urbanas. "Oferecer passagem, prestar atenção nos sinais de trânsito e evitar a competição com os outros veículos são práticas de grupo que tornam-se naturais quando você está pedalando."
Volta ao mundo de bicicleta
Você já imaginou dar a volta ao mundo de bicicleta? Um grupo de amigos de infância não só imaginou como começou a jornada em abril deste ano. "Nós optamos pela bicicleta para fazer essa viagem porque ela não polui, não produz resíduo e não agride o meio ambiente. Além de ser um esporte que estimula o corpo e a mente. Sua velocidade proporciona um contato direto com a natureza e com as pessoas", diz Kico Zaninetti, um dos participantes do grupo denominado Nova Origem. 

O roteiro dos amigos inclui a volta ao mundo de bicicleta para a realização de um estudo sobre sustentabilidade. A viagem contará com 45 mil km de bike, rodados em cerca de 40 países, durante quatro anos. O trajeto está dividido em três grandes etapas de aproximadamente 15 mil quilômetros cada. A primeira são as Américas, a segunda a Europa e Norte da África, seguidas pelo Sul da Ásia e pela Oceania.
6 dicas para encontrar um grupo
1. Entre em contato com a Associação de ciclistas da sua cidade. Eles podem recomendar grupos sérios e comprometidos com pedaladas seguras. 
2. Reflita sobre seus interesses em pedalar: rotas rurais, por exemplo, não ajudam se você tem como objetivo perder o medo para encarar o trânsito da cidade.
 
3. Pergunte sobre o limite de ciclistas permitido: há grupos de dez pessoas enquanto outros admitem até oitenta ciclistas pedalando ao mesmo tempo.
 
4. Faça perguntas sobre o preparo físico exigido: você pode perder o interesse rapidamente caso seja encaixado em uma turma com preparo físico muito superior ao seu e não sinta dificuldade demais para realizar os percursos.
 
5. Faça uma lista dos dias e horários mais convenientes para você. A bicicleta deve ser um meio de melhorar a sua qualidade de vida, e não mais uma fonte de estresse.
 
6. Busque opiniões de integrantes do grupo que você escolher. Assim, fica mais fácil ter uma idéia do clima que predomina entre os participantes e você já começa a se enturmar. 

Bicicleta: evite as lesões e incômodos mais comuns


Postura correta, equipamentos e acessórios evitam machucados
POR ANA MARIA MADEIRA

Pedalar parece muito simples para aqueles que andam de bicicleta desde criança. Basta pegar sua magrela e passear por aí, seja com um grupo de ciclismo ou sozinho pelas ruas e ciclovias. Certo? Errado. Inúmeros aventureiros da bike sofrem com lesões e incômodos dos mais diversos tipos, cujas causas variam desde as quedas, o uso inadequado dos equipamentos até a má postura e acidentes sérios.

"Em ciclistas é comum observarmos problemas nas rótulas e tendinites nos joelhos e no tendão de aquiles. Muitos relatam dores no pescoço, na lombar, e ao redor dos ombros na região dos músculos do trapézio", de acordo com o ortopedista Fabio Ravaglia.
 

O empresário Raphael Pazos pratica triathlon, modalidade que envolve natação, ciclismo e corrida, há seis anos. Apesar de não utilizar o esporte como profissão, ele leva os treinos e competições bastante a sério, mas já teve problemas de saúde por conta do esporte. "Em uma queda, acabei machucando o ombro. A ferida não cicatrizava, mas não dei muita importância na hora. Tempos depois, descobri um
 câncer de pele, relacionado à exposição ao sol e a falta de cuidado que tive com esse machucado". Uma boa dica que o esportista dá para aqueles que encaram competições ou longos percursos é não utilizar equipamentos diferentes daqueles utilizados nos treinos: "não invente de usar uma bermuda nova, que pode lhe causar machucados. Também é bom evitar comer durante a prova um lanche que você nunca ingeriu antes, por exemplo". Outro ponto importante é ter cuidado com a lombar, preocupando-se em fortalecê-la com exercícios de musculação. 

Previna assaduras
As assaduras são também um problema frequente, porém fácil de serem resolvidas. O posicionamento correto do selim (assento) é fundamental, pois se ele estiver muito alto (em relação ao pedal) vai exigir maior movimentação das pernas e aumentar o atrito, favorecendo a irritação da pele. Além disso, o mais indicado é que o selim esteja em posição reta ou levemente abaixada. Os selins com amortecedor e com uma abertura central ajudam a evitar as assaduras. E vale usar bermudas de ciclismo que mantêm a pele livre de umidade.
Mantenha a pose
A postura é fundamental para evitar dores e até lesões a longo prazo. "O guidão deve estar em uma altura que permita que você mantenha as costas eretas e os braços relaxados, mas não muito próximos ao corpo para não sobrecarregar as articulações", explica Fabio Ravaglia. 

Há um truque simples para saber a altura correta do assento: "fique em pé do lado da bicicleta - o assento deverá estar na altura do seu quadril", diz Fabio. É importante manter a cabeça alinhada, além de coluna e pescoços relaxados. "Relaxe também as mãos, os cotovelos e os ombros. Mantenha o joelho em uma altura inferior às mãos durante as pedaladas", diz o ortopedista.  
"Fique em pé do lado da bicicleta - o assento deverá estar na altura do seu quadril."
Cuide da lombar
As dores lombares são uma reclamação frequente e costuma também ser decorrente da má postura do ciclista sobre a bike. "Fortalecer o abdômen é um truque importante para a sustentação do corpo do ciclista sobre a bike e evitar as dores". Na academia ou em casa, capriche nos exercícios de musculação e abdominais para fortalecer o "core" ou cinturão de força, que é a região muscular que envolve essa região da coluna vertebral. É fundamental fazer alongamentos antes e depois de pedalar. E para quem está começando, vale pedalar por um período de tempo que não cause dores nas costas e ir aumentando o tempo gradativamente.  
Proteja os joelhos
Outro cuidado é que pedalar de maneira incorreta ou a sobrecarga pode causar tendinite nos joelhos ou problemas nas rótulas. "Manter o pedal muito frouxo contribui para esses problemas, além de aumentar as chances de estiramento no tornozelo", diz Fabio. No entanto, também é importante não jogar o peso do corpo todo sobre os membros superiores. Outra dica importante é não movimentar o quadril para os lados, como se estivesse rebolando, evitando problemas na articulação dos quadris. 
Pequeno ciclista
Não é só gente grande que deve se proteger contra lesões e acidentes. Os pequenos também. Um estudo realizado pela Faculdade de Odontologia da Unicamp, em Piracicaba, acompanhou 757 pacientes e concluiu que, nos casos de fratura facial, 98% das crianças não usavam acessórios de segurança ao andar de bicicleta, como o capacete.

Os meninos eram os maiores atingidos: 70% dos casos. Ou seja, vale lembrar aos pais que, mesmo na hora da brincadeira, é importante o uso, pelo menos, do capacete, que evita quase que por completo as lesões em casos de quedas e batidas leves.